Tenho sido feliz, mas sempre penso em você.
Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você. Eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me “fascinavam” e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e eu pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?
É engraçado pensar que por um longo tempo eu quis tanto ser a sua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. MAS O QUE EU TINHA, ERA SEU.
E com todas essas coisas eu paro e penso, se você tivesse ficado, teria sido diferente?
Melhor interromper o processo em meio quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente?
Não há sentido, melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Mas te digo com toda certeza do mundo, depois de todo nosso ‘tudo’me ficaram só coisas boas.Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser nova.
E com o coração na mão eu te peço. Mesmo que a gente se perca, não importa que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de você, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.
Com toda a minha saudade e o amor de sempre!
C.F.A

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